Memórias do Cárcere: 1+1=1

O guião, deu-me a possibilidade de propor uma visão guardada em mim há muito, e que só por poucas vezes, tinha tido a possibilidade de a pôr em prática. Sempre fui mais da bricolage e pouco da técnica. Sempre preferi fazer efeitos no espaço do plano (leia-se três dimensões), do que no espaço da pós produção (leia-se duas dimensões). Finalmente tinha-me chegado o filme onde poderia por em prática muitas das coisas que há alguns anos me interessam e que investigo com uma grande paixão. Esta constante aprendizagem, e obsessão, tem vindo a alterar o meu modo de percepcionar não só o Cinema, mas igualmente o Plano e a sua construção como unidade fílmica, de forma radicalmente diferente.


Falo da era do cinema mudo, mas mais especificamente do cinema alemão dos anos 20 e 30, com as suas trocagens e efeitos em câmara. Destaco naturalmente e por ordem meramente amorosa, Murnau e Lang. Mas igualmente todos os técnicos (leia-se artistas), que os criaram, o que para mim serão para sempre dos mais belos filmes da história do cinema. Tornam-se cada vez mais modernos, comoventes.
Numa altura em que de Cinema se fala pouco, e de Audio-Visual muito se fala, numa altura em que o cinema que sempre acreditei morreu, sinto uma espécie de missão "de mim, para mim", em reinventar aquilo que tenho aprendido. Atenção não estou a reclamar originalidade, nada disso, estou sim a encontrar caminhos para me implicar e estar sempre em estado de paixão quando filmo. O que partilho não será uma opção para todos os filmes, mas sim para este (efeitos ópticos, vidros, reflexos, etc). Cada filme tem a sua especificidade, e é esse o desafio que tenho em mim sempre que vou fazer um.
Este filme realizado por Sérgio Graciano, Memórias do Cárcere, pedia o uso dessa fantasmagoria e efeitos do "cinema primitivo". Em filmes como, Yvone Kane, de Margarida Cardoso, Amor Amor de Jorge Cramez, Nome de Sana N'Hada, e outros do João Botelho, já tinha pontualmente feito algumas destas experiências.


No Treblinka de Sérgio Tréfaut, também executei efeitos, mas tirando partido do espaço onde se passava a ação. Numa carruagem de comboio, teriam de ser evocados corpos de prisioneiros de campos de concentração. Tirei partido do vidro duplo que tinham as janelas do Trans-Siberiano. Enquadrando só os vidros obtém-se uma imagem dupla, em distorção, sem grande definição. O efeito é surpreendente.


Voltando ao Memórias do Cárcere, seria possível usar alguns efeitos de forma "mais estruturada", integrando-os na dramaturgia do filme, não só enriquecendo-a, mas igualmente usá-los como forma de contar a história. Por isso mesmo em algumas das cenas, pensei-os como que de um filme mudo se tratasse.
Foi estabelecido um "dialogo", muito prazeroso do ponto de vista criativo. O Sérgio que sempre usou o tempo dos planos como unidade estruturante nos seus filmes, convocou para este, esse princípio, mas com coreografias bastante complexas em termos de plano sequência. Para a sua execução utilizei a lente zoom, Cook Varotal 20/100mm, pois queria fazer movimentos ópticos durante esses planos, para criar não só dinâmicas de velocidade, como para colmatar escalas.

Parte da minha proposta consistia na evocação dos personagens para espaços onde não se encontram fisicamente. A história de amor entre Ana Plácido e Camilo Castelo Branco, levou-me a propor a "presença na ausência". Não o leiam de forma literal por favor, não se trata de "estou a pensar em alguém e essa pessoa aparece".

Trata se sim de tentar filmar a cabeça de cada protagonista, e materializar em plano exactamente isso (não será o que sempre se persegue no Cinema?). Ou seja, quando cada um deles visita a cela do outro, pretendi sempre que fosse no mesmo plano, e não num campo-contra campo, para emergir a ideia que eles os dois são um.

São um corpo com duas cabeças, quatro braços e quatro pernas. Esta ideia está igualmente em planos sem qualquer efeito.
Aprovando as possibilidades que lhe apresentei, e acima de tudo entendendo-as, o Sérgio começou a criar uma mise-en-scène que tinha em conta os efeitos propostos. O Camilo "voa" numa cena, já em outra escreve à secretaria, está de dia, e durante um traveling de aproximação, o espaço fica de noite, (sem haver manipulação na luz, só a há na câmara). Em alguns exteriores (dia e noite), tendo inspiração nas técnicas de matte painting, coloquei em directo nuvens. Retirei céus de pinturas e fotocopiei em acetato. A transparência do suporte não só iluminava a imagem como conseguia misturar a imagem impressa com as nuvens reais.



Não se tratou de fazer efeitos sem critério, mas sim evocá-los sempre que fosse necessário, no sentido de adensarem a dramaturgia do filme, até porque estamos a "ouvir uma narração", se virem o filme e/ou série, não se esqueçam disto.
É muito difícil conseguir partilhar tudo isto com vocês, e fazer-me entender através de meras descrições. Por esse motivo, achei que a melhor forma, era elaborar uma espécie de glossário. Neste descreverei os efeitos executados no filme e a forma como os pusemos em pratica.
Nota: toda esta parte dedicada às técnicas de execução aplicadas nas trocagens, será publicada numa segunda parte, onde no final, poderão igualmente ter acesso a uma lista: filmes, livros, técnicas, e os técnicos que as executaram.
FIM PARTE I